domingo, 14 de dezembro de 2025

NOD196. Reparação

A cabana erguia-se sozinha na orla do território seco, onde o vento passava como uma faca e o sol parecia ter jurado não perdoar ninguém. Era pequena, feita de toros escurecidos, mas sólida como uma promessa antiga. Ali vivia uma menina, tão leve e silenciosa quanto o pó da manhã, acompanhada apenas do seu cordeiro, um bicho manso que a seguia para todo o lado, como se o mundo inteiro fosse demasiado grande sem ela.

Poucos sabiam da sua existência, e menos ainda passavam por aquelas paragens. Mas havia um que aparecia com frequência: um guaxinim, desses animais curiosos e atrevidos, de olhos vivos e patas rápidas. A menina partilhava com ele o que tinha: restos de pão, um pedaço de carne seca, um pouco de água fresca. Ele, em troca, dava-lhe companhia e uma lealdade silenciosa que não se compra nem se pede.
Numa manhã em que o sol começava a erguer a crista atrás das colinas, o guaxinim surgiu de repente, inquieto, os pelos do dorso eriçados. Deu três voltas em redor da cabana, guinchando, até que a menina, percebendo o alarme, se aproximou da porta de armação na mão.
— O que foi, amigo? — perguntou ela, já com o coração mais rápido que os passos.
O animal correu para a clareira à frente da cabana, parou e olhou para o horizonte. A menina seguiu o seu olhar. Lá vinha alguém. Um homem cambaleante, apoiando-se ao que parecia ser a última réstia de força que lhe sobrava. Arrastava uma perna, e o casaco estava rasgado, manchado de sangue e poeira. Ao peito, escondida mas mal disfarçada, uma bolsa pesada.
Quando finalmente chegou ao alpendre, caiu de joelhos.
— Menina… — murmurou ele, com a voz cortada como madeira seca. — Preciso… de ajuda… Sou… pistoleiro… mas não mau homem… — tossiu, cuspindo sangue. — Fui ferido… depois de um assalto. Tenho aqui tudo. — Ergueu a bolsa com a mão trémula. — Tudo o que roubei. Salva-me… e é teu.
A menina, que conhecia bem mais da vida do que a idade deixaria supor, não recuou. Mandou o guaxinim afastar-se, trouxe água, panos e ervas. Limpou-lhe o ferimento, estancou o sangue, deu-lhe abrigo e descanso. Durante dois dias tratou dele sem perguntas. O cordeiro, sempre manso, deitou-se ao lado do homem como se quisesse lembrá-lo que ainda havia bondade no mundo.
Quando, por fim, o pistoleiro recuperou forças, aproximou-se da mesa onde a menina preparava o jantar. Pousou a bolsa diante dela.
— É tua, menina. Uma promessa é uma promessa. Salvou a minha vida. E isto… isto vale mais do que a minha própria pele.
Ela fitou-o com calma. Os olhos dela eram claros como um riacho sem pressa.
— Não — disse. — Agora que tens saúde, pega nessa bolsa e leva-a de volta àqueles a quem roubaste. Devem precisar mais do que tu.
O homem pareceu não entender.
— Mas… estás a recusar? Depois do que fizeste?
— Devolvi-te a vida — respondeu ela, com a serenidade firme de quem não teme nada. — Em troca, devolve-lhes o dinheiro.
O pistoleiro ficou imóvel, como se aquelas palavras tivessem a força de uma bala que lhe atravessasse a alma. O guaxinim, ao lado da menina, observava tudo em silêncio, a cauda traçando um semicírculo lento na poeira.
Finalmente, o homem pegou na bolsa, apertou-a contra o peito e ergueu o chapéu num gesto de respeito que não se vê muitas vezes.
— Pois assim será. — disse ele. — E, por Deus, menina… que nunca te falte quem te proteja tanto como proteges os outros.
Montou o cavalo, ainda trôpego, e partiu na direção da cidade, levando consigo não só o peso do ouro roubado, mas o peso maior de ter sido, por um momento, melhor do que era.
A menina ficou no alpendre, com o guaxinim ao lado e o cordeiro aos pés. O vento passou devagar, levantando poeira e silêncio. E ela, com a serenidade dos que nasceram para a coragem, murmurou:
— Vai cumprir o que te pedi. É só isso que importa.
Depois voltou para dentro, acendeu o lume e deixou o mundo seguir o seu caminho. O Oeste é vasto, duro, e cheio de homens perdidos. Mas naquele pequeno canto de terra, ainda havia justiça bastante para os salvar.

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