domingo, 22 de fevereiro de 2026

NOD204. O sinal das nuvens

 

.A poeira levantava-se em espirais, empurrada pela ventania quente que vinha do oeste. O sol, um disco de ferro em brasa, castiga a terra sem misericórdia. A caravana se arrastava, os animais cansados e os rostos suados. Eu era o guia, o homem pago para saber a direção, para manter a caravana segura. Mas a segurança nunca é garantida nas trilhas do deserto. Não para nós, e não para ninguém.
Eu vi as nuvens primeiro. Não eram as nuvens que você veria num dia normal. Não eram aquelas que flutuam preguiçosas, empurradas por ventos brandos. Essas se agrupavam, se fechavam, se moviam com pressa, como se seguissem um caminho de guerra. O tipo de nuvem que você só vê quando algo está prestes a acontecer.
Olhei para o chefe da caravana, o velho Carter. Ele estava ocupado com sua charrete, sua esposa ao lado, mas sabia que algo estava no ar. Sentiu o cheiro, como eu. O cheiro de pólvora prestes a ser disparada.
"Senhor, as nuvens...", eu disse, sem precisar terminar a frase. Ele me olhou com um sorriso cansado, o tipo de sorriso que um homem dá quando a vida já lhe ensinou que o mundo nunca é só o que parece.
"Eu sei, eu sei. A velha tribo Apache anda por aqui, não é? Já o senti também."
Naquela hora, o vento se virou, soprando forte da direção que vinha a ameaça. A caravana parou por um instante, como se soubesse que estava prestes a ser empurrada para o desconhecido. A terra, em silêncio, parecia ouvir o que estava por vir.
Eu não me engano facilmente. Aquelas nuvens não eram um simples sinal da natureza. Era a fumaça das fogueiras, o ressoar dos tambores. Eram os Apache se preparando. Eles se moviam rápido, como sombra, e eles nunca se apressam sem razão. Não faziam barulho, mas o vento... o vento levava até nós os ecos de sua chegada.
Eu acenei para os homens de guarda, uma ordem silenciosa. Eles sabiam o que fazer. Um a um, desceram de seus cavalos, e o som das espingardas sendo carregadas ecoou. O medo não estava em suas mentes, mas a antecipação estava.
O velho Carter se aproximou de mim. "Quando é que eles vão atacar?", perguntou, a voz grave, mas sem pânico.
"Agora", eu disse. "Logo."
A caravana estava a um passo da linha de fogo, e eu sabia que não havia tempo para uma fuga. O melhor era estar pronto. Eu tinha visto esse tipo de nuvem antes, quando as tribos se reuniam para atacar, e o tempo sempre foi curto.
De repente, os primeiros gritos de guerra começaram a ser ouvidos ao longe. O som chegou abafado, como se o vento estivesse tentando escondê-lo. Mas não havia como negar. Os Apache estavam chegando, prontos para a luta, prontos para a morte, com as nuvens como seu único sinal de guerra.
Eu olhei para os homens da caravana. Sabia que não podiam correr. Não podiam fugir. Só podiam lutar, ou morrer tentando.
As nuvens, agora pesadas e escuras, indicavam o começo da batalha. Eu puxei meu revólver, ajustei o chapéu e disse, mais para mim do que para os outros: "Preparem-se. Eles estão vindo."
E foi assim que as nuvens se tornaram algo mais. Não eram apenas nuvens. Eram o fim de algo e o começo de outra coisa. O começo de uma luta que saberíamos como travar, mas nunca saberíamos como terminar.
*
O vento ficou mais forte, o sol se abaixando no horizonte, e a poeira se misturou com o cheiro ácido de pólvora. A tensão estava no ar, mas a experiência me dizia que a batalha estava longe de ser perdida. Não para nós, não para a caravana. Os Apache eram rápidos, mas sabíamos como lutar.
"Fiquem prontos!", eu gritei para os homens ao redor. O som do meu próprio comando parecia estranho, quase abafado, como se o mundo estivesse em suspenso. Mas a tensão era palpável. Sabia que o que aconteceria nos próximos minutos definiria o destino de todos nós.
Eu olhei para ela então. Sarah. A jovem mulher da caravana. Ela estava ali, de pé, com os olhos fixos no horizonte, o cabelo castanho claro ondulando ao vento. Uma beleza simples, mas que parecia mais intensificada por aquele momento de perigo. Algo no seu olhar disse que ela não estava com medo, mas preparada para o que fosse preciso.
Eu só podia pensar em uma coisa: se sobrevivessem, todos nós, ela e eu… talvez o que mais precisássemos não fosse mais um tiro, mas algo mais tranquilo, mais sereno. Mas, nesse momento, isso estava além de nós.
Então, o primeiro grito indígena cortou o ar. Era o som de um caçador a fazer seu chamado. E, como se fosse o estopim de um barril de pólvora, os Apache avançaram, saindo de entre as rochas e do capim seco como flechas. Eles vinham rápidos, mas nós já estávamos prontos.
O som dos tiros encheu o ar, o estrondo das armas de fogo se misturando aos gritos e uivos dos Apache. Um dos homens da caravana foi atingido, mas ele não caiu. Não ainda. Ele gritou para nós, mantendo a calma.
"Voltem! Não recuem, mantenham a linha!", ele gritou, sua voz firme, mesmo sangrando.
A batalha não foi longa. O suficiente para mostrar que os Apache, embora ferozes, não estavam preparados para a nossa defesa. Não tínhamos apenas armas, tínhamos algo mais: a vontade de viver, de proteger, de seguir em frente. Nós estávamos ali por uma razão maior. E a força de nossa determinação foi mais do que eles podiam suportar. A caravana resistiu.
Quando o último Apache fugiu, desaparecendo nas colinas com a rapidez de uma sombra, a calma se instalou. O vento, que antes estava carregado de tensão, agora parecia suavizar-se, como se fosse possível respirar de novo. A poeira se assentou, o sol baixando lentamente.
Eu olhei para Sarah. Ela estava ali, com os olhos fixos em mim, com um sorriso tímido, mas genuíno. O medo tinha desaparecido de sua face. Eu sabia que ela não temia mais nada, pois sobrevivemos juntos.
"Está tudo bem", ela disse, sua voz suave, mas cheia de um alívio sincero. Eu acenei.
"O pior já passou", respondi, e, nesse momento, soube que era verdade.
Naquela noite, enquanto o fogo queimava, iluminando os rostos dos sobreviventes, eu e Sarah ficamos lado a lado. Os outros conversavam, começavam a se organizar para a próxima etapa da jornada. Mas para mim, nada mais importava, a não ser o calor da sua mão nas minhas, a simples presença dela ao meu lado.
O perigo tinha ficado para trás. O futuro, com todas as suas incertezas, agora parecia menos assustador, pois ela estava ali, e eu sabia que, se houvesse mais batalhas, ela estaria comigo. Não só nas estradas poeirentas do Oeste, mas em cada amanhecer que nos aguardava.
E naquele momento, sob o céu estrelado, a única coisa que realmente importava era que, depois de tudo, o futuro nos parecia possível. Mais do que possível. O futuro parecia nosso. E quem poderia duvidar disso?

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