Novelas do Oeste Distante

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quarta-feira, 4 de maio de 2016

CNT002. A primeira prova

 
Apresentamos hoje um conto de Orlando Marques, ilustrado por E.T.Coelho, publicado no Jornal do Cuto nº 36. Como curiosidade, anote-se que este conto tinha tido publicação no Mundo de Aventuras nº 367, com nomes modificados para as personagens e com o título «Um homem do Oeste», tendo já sido apresentado no Passagens. Nesse conto, as ilustrações foram de José Antunes.
 
 
 
Rob Killer, o atleta, riu mais uma vez, no seu riso forte e ruidoso, reclinando-se na cadeira que rangeu sob os seus violentos estremeções. E, meio sufocado ainda por uma enorme vontade de rir, fitou os companheiros sentados em redor da grande mesa na sala de jantar do "Rancho" de Owl-Hoot-Pass, balbuciando
— Que ridículo, que ridículo, rapazes!... Ah! Ah! Dan Buck capaz de domar esse búfalo infernal que parece irmão do diabo I... Possivelmente essa "criança" mal sabe manejar o "CoIt"... Não pensem nisso...
E Killer riu de novo ruidosamente pousando as mãos sobre o ventre saliente.
— Well, o rapaz está cá há pouco tempo e nós mal o conhecemos... mas o patrão parece gostar dele, e — com mil diabos — afigura-se-me que é homem decidido...
E o "cow-boy" que falara piscou os olhos para os companheiros, olhando em seguida para Killer que ainda ria.
— Tu não foste capaz de vencer esse autêntico “Diabo da pradaria”... Como todos os que tentaram subjugá-lo foste também atirado de cabeça para o solo...
Killer fez-se bruscamente sério e mordeu os lábios lançando um olhar frio para o que acabava de falar.
— Well... sou um bocado pesado talvez... ou talvez tivesse empregado mal a minha força. Mas —com todos os diabos — garanto-lhes que ainda hei-de deitar esse maldito búfalo abaixo! Hei-de vê-lo roçar-se aos meus pés como um cordeiro I Teve um brilho metálico no olhar e um sorriso cínico enrugou--lhe os recantos dos lábios grossos; — Mas antes disso quero assistir à primeira prova do "novato". Quero ver Dan Buck "bater-se" com o "Diabo da pradaria"!...
E de novo uma gargalhada estrepitosa rematou as suas palavras. Nesse momento, porém, uma voz calma e sonora soou ao fundo do aposento, fazendo-o tornar-se bruscamente sério e até levemente pálido.
— Well, Mr. Killer, vou imediatamente satisfazer o seu desejo, tentando domar esse "Diabo da pradaria". Vamos, rapazes! A caminho de Hoot-Pass-Valley
Fora Dan Buck que falara do limiar da porta.
*
Já no alto das montanhas que dominam Hoot-Pass-Valley, onde Dan devia prestar a sua primeira prova, Rob Killer, ladeando o proprietário do Rancho, e rodeado por todos os "cow-boys", ria pesadamente antevendo o espetáculo divertido que ia presenciar dentro de momentos.
E, de repente, à entrada do vale que formava como que uma espécie de anfiteatro rodeado de altas montanhas, a manada de búfalos surgiu como um furacão, chefiada pelo "Diabo da pradaria" que corria à frente de cabeça baixa, enorme e ameaçador.
Dan, montado num magnífico cavalo negro, galopava confundido com a manada e à sua aparição, um murmúrio de entusiasmo saiu dos lábios dos espectadores, postados lá no alto das montanhas. Killer soltou uma gargalhada tão potente que conseguiu com ela abafar pelo espaço de breves segundos o ruído ensurdecedor do golpe furioso da manada.
O proprietário do Rancho teve um brado forte de incitamento sem desviar os olhos de Dan.
— Avante, meu rapaz I Mostra as tuas habilidades!
Como se tivesse ouvido estas palavras, Dan afastou subitamente o cavalo do interior da manada e, ladeando-a, lançou-se a todo o galope no encalce do "Diabo da pradaria" que pressentindo-o, baixara ainda mais a cabeça e corria cada vez mais, rugindo forte e levantando sob as patas poderosas, densas nuvens de poeira.
Mas Dan, por seu turno, incitava o cavalo a um galope desenfreado, conseguindo reduzir a distância que o separava da fera. De repente, ergueu-se sobre a sela, e, num prodígio de equilíbrio, ficou de pé fincando firmemente as botas no cabedal rijo da mesma.
A corrida continuava, louca, vertiginosa... E, de súbito, Dan pulou no espaço de braços estendidos e pernas abertas.
Ao sentir o contacto do inesperado cavaleiro, o "Diabo da pradaria" deu um salto brusco, desviando--se da manada que, encegueirada pelas nuvens de poeira que ele deixava atrás de si, prosseguiu na sua corrida infernal, desaparecendo em poucos segundos no outro extremo do vale.
A fera deixara de correr e agitava-se agora da direita para a esquerda e vice-versa, arqueando o tronco, rugindo furiosamente. Mas Dan agarrara-se-lhe ao lombo saliente com a força do desespero, fechando os olhos para não ser tomado pela vertigem. Passaram-se assim dois minutos.
Lá no alto, Killer substituíra pouco a pouco as suas gargalhadas cínicas e grosseiras por uma expressão séria, perturbada. À sua volta, os "cow-boys" e até o próprio proprietário do Rancho soltavam brados de louco entusiasmo, agitando os largos chapéus por cima da cabeça.
Do rosto de Dan o suor corria às bicas, cobrindo-o uma vermelhidão da cor do lacre; o chapéu voara-lhe da cabeça, mas os lábios mantinham-se firmemente cerrados numa expressão enérgica, e os braços apertavam-se cada vez mais em torno do lombo enorme da fera. O "Diabo da pradaria" pulou ainda por algum tempo, sacudindo violentamente o tronco, rugindo sempre... Mas, de súbito, estacou arquejante, olhos salientes e raiados de sangue, cabeça baixa, e caiu no solo pesadamente como um grande fardo.
Estava vencido I
Cinco minutos depois, Dan chegava ao cimo da montanha. Desmontou de um salto e acercou-se de Killer, o atleta, que o olhava ainda com uma expressão de surpresa nos olhos pequenos e maldosos.
— Well, — murmurou, creio que a minha primeira prova o satisfez, hein?
E martelando bem as palavras, acrescentou:
— A "criança", o "novato" acaba de mostrar-lhe que as suas ridículas afirmações não tiveram o menor fundamento. E lembre-se, compenetre-se bem disto: habitue-se a respeitar os outros e especialmente os seus companheiros E, como que a rematar estas palavras, ergueu de chofre o punho fechado e abateu-o violentamente no rosto de Killer, que rolou pelo solo.
Por certo que o atleta nunca mais teria vontade de rir à custa dos outros!...
FIM

 

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