Novelas do Oeste Distante

Novelas do Oeste Distante

segunda-feira, 20 de junho de 2016

CNT007. As barras de ouro

Publicamos mais um conto de Edgar Caygill, conto que fez parte da série de ouro do Jornal do Cuto. As ilustrações são de José Baptista (Jobat).
 

Os três rapazes levantaram-se de um golpe logo que viram entrar no quarto o vê-lho Amber Cox. Estranharam, de relance, os lábios contraídos e a expressão dura do seu olhar. Mas nada lhes dizia que passados dez anos de permanência no Oeste, em labuta constante pelas minas e pela defesa da vida contra os muitos foragidos da lei, conservasse no rosto o tique de otimismo que lhe' diziam ser característico.
No entanto, esta impressão foi passageira. Os três pares de olhos cravaram-se famintos numa caixa que o velho trazia debaixo do braço direito e seguiram-no até que foi colocada sobre a mesa arrumada no centro do quarto.
— Admirados de me verem, hem? — murmurou o velho em voz baixa, como se não compreendesse a razão daqueles olhares. — Receberam os meus telegramas?
— Sim, recebemos — murmurou Davigton, o mais alto, senhor de ombros largos e grande peito. — E admirou-nos bastante o seu conteúdo...
— Pois é, mas...
— O tio sabe que nunca vimos com bons olhos a sua partida para o Oeste em busca de uma fortuna que, a contrariar tudo o que se diz por aqui em Nova Iorque, conseguiu realizar. Os perigos que correu foram, com certeza, muitos, e podia não ter conseguido nada. Mas, enfim, resolveu-se tudo pelo melhor e alegra-nos a sua chegadal...
— Obrigado, rapazes I Mas...
— Falamos com sinceridade —atalhou Rex, o do meio, dotado de grandes músculos. — E não pense que é só pelo facto de ter prometido uma barra de oiro a cada um de nós! Não! É, sobretudo, porque já sentíamos saudades suas, saudades de uma ausência tão prolongada!
O termo "saudade" obrigou o velho a abrir os olhos desmesuradamente, pois sabia que os sobrinhos nunca o tinham visto e só acidentalmente sabiam da sua existência. Meio confuso, portanto, articulou:
— Mas...
Nesse momento, o terceiro dos rapazes resolveu justificar a sua presença.
— Ainda bem que veio, tio! Aproveito para convidá-lo para o meu casamento. Sabe? Sou noivo de uma gentil rapariga que trabalha numa grande sala de costura. Com a barra de ouro que nos prometeu, vou constituir lar e começar a trabalhar a sério...
— Mas... Davigton adiantou-se.
— Um momento, tio. Antes de falar, oiça o que lhe vou dizer. Nem Rex nem Tom são dignos da sua oferta. Ambos são jogadores e beberrões. Por isso, queria propor-lhe o seguinte: o tio entrega-me, a mim, as três barras de ouro que quer distribuir por nós, e eu, por minha vez, vou trocá-las por dinheiro e montar um negócio de diligências. Faremos sociedade e...
— Mas... — começou, novamente, o velho Cox, logo interrompido pela voz irritada de Rex, que se levantara de um salto. — Não penses que somos tolos, Davigton — explicou ele. — Já conheço o género habitual das tuas negociatas: apostas nas corridas de cavalos!
Não 1 O tio entrega-nos, de sua vontade, uma barra de ouro e cada um de nós faz-lhe o que melhor entender.
— Cala-te, mentiroso! — gritou o interpelado.— Alguma vez me viste apostar? Se não estivesse aqui o tio...
— Oiçam, rapazes, mas... — gritou o velho, sempre interrompido.
— Mentiroso, eu?! Repete lá a palavra?
— Mentiroso I
Mas... — tentou Cox.
E antes que Amber Cox pudesse empregar outra palavra além daquele monossílabo, Rex lançou-se sobre o irmão e agarrou-o com força. Davigton procurou fugir ao amplexo e ambos se estatelaram no solo. Engalfinharam-se então, numa verdadeira luta corpo-a-corpo, sem que Tom ou o velho pudessem intervir. Os socos soavam como marteladas secas e as respirações ofegantes dos contendores enchiam o acanhado ambiente do quarto.
Em certa altura, Rex, com um safanão, empurrou Davigton para um canto e levantando uma cadeira, projetou-a com violência sobre o irmão. O velho procurou evitar o gesto, Davigton tentou esquivar-se, mas nem um nem outro tiveram sorte! O velho caiu no solo com um pontapé, e a cadeira bateu em cheio no corpo de Davigton, que escorregou, para o sobrado, meio inconsciente.
Tom ao ver a brutalidade do irmão, perdeu o controlo dos nervos e gritou-lhe:
— Miserável! Isto não se faz!
Ao ouvir estas palavras, o pobre Cox, procurou levantar-se e intervir. Ainda chegou a dizer:
— Eh, amigos! Mas...
Era tarde, Rex não se conteve com o insulto e desferiu um potente soco nos maxilares de Tom. Este teve um estremecimento, ficou entontecido, e acabou por reagir. Dês-ta reação resultou uma cena que serviu para espatifar todos os móveis e utensílios do quarto. Começou pela mesa, passou pelas cadeiras, candeeiros, cómodas e acabou na cama. A célebre caixa do velho foi parar à entrada da porta.
Entretanto, Cox, apavorado e surpreendido com a "bonita" receção que lhe fora reservada, procurara diversas vezes acalmar os dois irmãos, mas sempre fora repelido, e até, algumas vezes, de forma tal, que lhe ficaram gravadas as marcas no rosto.
Acabou, claro, por se encolher a um canto e sempre que podia gritava:
— Parem com isso! Mas...
Logo o interrompia um soco, uma queda, um pontapé. Passado esse instante de confusão, voltava:
— Então?1 Haja juízo I Mas...
Seguiram-se novas cenas, e o pobre velho nada conseguia. Estava exausto. Olhou em redor e ao ver os restos dum banco, foi sentar-se. Sacudiu o fato e olhou para os três irmãos.
Nesse momento, Rex e Tom, sem haver vencedor, caíam cada um para seu lado, extenuados e bastante feridos. Davigton abria os olhos a custo e fitava admirado o estado em que estava o quarto. E o silêncio, desta vez, instalou-se no ambiente.

                                                                                 * * *

O velho Amber Cox abanou a cabeça com tristeza e desespero. Levantou-se com esforço para ir buscar a caixa que trouxera e que tinha caído. Sempre perseguido pelos olhares ambiciosos dos sobrinhos, que estavam cada um derrubado para seu lado, voltou a sentar--se, e com voz lenta e pastosa, conseguiu finalmente falar:
— Porque são teimosos, rapazes] Não me deixaram proferir uma única palavra! Só mas, mas, mas... Quero-vos dizer que trazia as barras de ouro, mas que as roubaram no comboio!
E mostrou a caixa vazia.
FIM

Sem comentários:

Enviar um comentário

Mais livros

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...