sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

NOD203. A cabana da quebra-ventos

 

A tarde já ia morrendo quando o casal surgiu na dobra do terreno, cavalos cansados depois de horas a cortar pelo mato seco. A ravina estreita abria-se ali para um pequeno planalto e, no centro dele, meio engolida por arbustos retorcidos, erguia-se uma cabana velha, dessas que parecem ter resistido mais por teimosia do que por madeira boa.
Havia luz dentro.
E onde há luz num vale tão ermo, ao cair da noite, raramente há coisa boa.
O rapaz, Tom Weaver, puxou as rédeas e fez sinal à rapariga. Clara parou ao lado dele, o olhar vivo apesar do cansaço.
— Aquilo não é normal — murmurou Tom. — No mapa do condado não aparece cabana nenhuma por aqui.
Clara nada respondeu. Limitou-se a apontar para a janela baixa. Tom inclinou-se na sela e espreitou. O que viu fez-lhe apertar o maxilar.
Lá dentro, quatro homens empoeirados contavam maços de notas e moedas de prata sobre uma mesa tosca. Um deles ainda trazia um lenço preto ao pescoço, não pelas correntes de poeira… mas para tapar o rosto. Os outros riam, cansados mas vitoriosos.
Tom reconheceu, no mesmo instante, o cofre arrombado que estava sobre a mesa. Era do rancho onde viviam, o mesmo rancho que, horas antes, tinham encontrado saqueado, o gado disperso e a casa virada do avesso.
Clara aproximou-se, gelada.
— São eles. Roubaram-nos tudo, Tom.
— Pois então — murmurou ele, enquanto puxava o rifle para o colo — vamos acertar contas.
Esconderam os cavalos, avançaram silenciosos e tomaram posição junto à porta. Tom ergueu três dedos… dois… um…
Arrombaram a porta.
— Ninguém se mexe! — gritou Tom.
Os homens viraram-se ao mesmo tempo, mãos a fugir para os coldres, mas pararam quando viram a espingarda apontada bem ao peito do que estava mais perto da lareira.
Clara entrou logo atrás, também armada.
O silêncio que caiu foi denso como pó acumulado.
E então, do fundo da sala, um dos quatro homens ergueu a cabeça devagar. Tirou o chapéu. Empurrou a luz para o rosto.
Tom deixou cair a respiração toda de uma vez.
— Pai?…
O homem sorriu, um sorriso cansado, gasto, mas real.
— Tom… Clara… Nunca pensei voltar a ver-vos por estes lados.
Clara deu um passo em frente, o olhar ferido.
— O que é isto? Tu… tu andas com estes homens? Roubaram o nosso rancho!
O pai de Tom, Joshua Weaver, ergueu as mãos, pedindo calma.
Havia um arrependimento profundo nas rugas do rosto.
— Ouçam-me antes de julgarem. Estes homens… Não são meus companheiros. São a razão de eu ter desaparecido. Cruzámo-nos meses atrás. Viram-me carregar donos do rancho para o mercado e acharam que eu era informante de algum tesouro. Raptaram-me… obrigaram-me a guiá-los por estes montes. E quando perceberam que eu conhecia o vosso rancho… obrigaram-me a falar. Não os ajudei por vontade. Ajudaram-me a sobreviver.
Clara mordeu o lábio. Tom continuava imóvel, arma firme, mas o olhar a vacilar.
Um dos bandidos cuspiu no chão.
— Cala-te, velho!
Clara virou-se para Tom, tensa.
— Ele está a dizer a verdade?
Tom conhecia aquele olhar do pai. Sabia quando mentia… e quando não era capaz.
E ali não havia mentira.
— Baixa as armas, Tom — disse Joshua. — Deixa-me corrigir o que fiz.
Mas nesse instante um dos bandidos tentou sacar da arma. Clara disparou primeiro, não para matar, mas para atingir o braço. O homem gritou e caiu.
A confusão instalou-se. Tom golpeou outro com a coronha do rifle, derrubando-o. O terceiro ergueu-se, mas o pai de Tom, com uma rapidez que ninguém esperava de um homem da sua idade, agarrou-o e encostou-lhe a faca à garganta.
Quando a poeira baixou, três homens estavam imobilizados e desarmados. O quarto tentava estancar o sangramento no braço.
Joshua pousou a faca e virou-se para Tom e Clara com os olhos humedecidos pela vergonha e pelo alívio.
— Sei que não posso pedir perdão — murmurou. — Mas posso ajudar a devolver-vos o que é vosso.
Tom respirou fundo, o coração dividido em mil direções.
Durante alguns segundos, o mundo ficou quieto como um deserto antes da tempestade.
Depois, guardou a arma.
— Pai… Vamos para casa.
Clara pousou uma mão no braço de Tom, firme e calorosa.
Joshua baixou a cabeça, vencido, mas vivo.
— Obrigado, filho.
Lá fora, o vento levantava poeira e folhas secas. O caminho de volta seria longo, e nada garantia que a vida voltasse a ser simples.
Mas pela primeira vez em muito tempo, havia uma possibilidade.
E no Oeste, uma possibilidade vale mais do que ouro.

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