Novelas do Oeste Distante

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segunda-feira, 7 de novembro de 2016

CNT010. Terras Selvagens

O primeiro conto de Jorge Magalhães foi publicado quando este tinha tinha 20 anos nos fascículos do Mundo de Aventuras 491 a 493. Nele, o autor evidencia uma escrita de qualidade excelente, trazendo-nos a história de um caçador solitário que, quando embriagado pela beleza da paisagem, deparou com um ataque de Pawnees a uma caravana. Aqui deixamos essa preciosidade com ilustrações de Jobat.


A CARAVANA
 
O cavaleiro solitário deteve a montada no cume do alto morro sobranceiro ao rio. Direito e firme na sela, dominava com a sua figura - estátua de pedra, banhada de luz - o fundo e largo vale onde o rio corria em sobressaltos de espuma, galgando, rápido, os acidentes de terreno.
 
Para além do tumultuoso curso de água, avistava-se um soberbo panorama de colinas, prados floridos e pequenos bosques de um tom verde-escuro. Limitavam-no montanhas de grande altura, das quais soprava fina aragem que arrastava pelo céu o cortejo das nuvens, tão brancas e diáfanas como a espuma do rio.
 
O cavaleiro passou a mão, numa carícia, pelo pescoço luzidio da montada.
 
— Well ! Vamos, Thunder (Tempestade) !
 
Obediente àquela voz, que perfeitamente entendia, o belo cavalo negro começou a descer a encosta da colina, num trote largo e solto que fazia rolar pequenas pedras por entre os tufos de arbustos rasteiros, ao longo do íngreme declive.
 
Logo depois, debruçados sobre a água fresca e límpida de um regato que, correndo e saltitando, atravessava um pequeno bosque de sombra farta e acolhedora, os dois companheiros matavam a sede das últimas horas de caminhada.
 
Um odor suave e delicado, feito da fragância das roseiras bravas e dos aloendros em flor, pairava no ar, entre os troncos rugosos das sequoias inumeráveis. Nas faldas da montanha distante, as matas cerradas de pinheiros e de abetos punham uma nota de cor que contrastava singularmente com a brancura da neve que principiava a tapetar o solo, já pendia em flocos dos ramos das árvores.
 
A última luz da tarde envolvia o bosque numa espécie de auréola dourada, refletida em cada folha e cada tronco, e nas transparentes águas do arroio sussurrante. Já nas veredas, nos caminhos estreitos que serpenteavam entre os troncos ou ao longo dos taludes, as sombras se adensavam, tornando vagos e imprecisos os contornos das coisas. Para os lados do poente, estranhas nuvens purpúreas formavam como que um castelo fantástico, alcandorado nos brancos cimos da montanha.
 
Smell Burton, o caçador solitário, sentia-se empolgado pela beleza do espetáculo. Naquele momento, uma porção de ideias literárias que, noutro lugar e noutra ocasião, teria considerado ridículas, acudia-lhe ao espírito, cheio totalmente da visão irreal daquele poente de sonho.
 
Montou de um salto, decidido a recomeçar a jornada, por curtos instantes interrompida, enquanto através do céu se soltava, como flecha de um arco, o último raio do sol moribundo.
 
* * *
 
Com o silêncio e a sombra da noite, descia sobre a Terra uma grande e doce paz. A lua, espreitando por uma seteira das nuvens, veio espargir a sua luz suave sobre a grande planície deserta, que principiava a estuar de uma vida estranha, a vida silenciosa e furtiva dos pequenos e grandes animais que aí tinham o seu «habitat».
 
O caçador apressou o andamento da montada ao longo da vereda sinuosa que ia percorrendo. Por entre os troncos, distinguia a fita prateada do rio, que deslisava, sereno, entre as duas margens baixas. (O terreno, passada a sucessão de cachoeiras, aplanava-se, oferecendo um leito fácil, sem meandros nem desníveis, à corrente).
 
Smell alcançou uma volta do caminho, e, curvado, ia passar sob uma ramada baixa, quando, com um brusco puxão de rédeas, reteve Thunder. Aos seus ouvidos, trazido pelo vento, que começara a soprar com força, fazendo farfalhar o arvoredo, chegava um eco fragmentado de detonações. Eram detonações de espingardas, de numerosas espingardas, e vinham de um ponto que o caçador, com o seu seguro sentido de orientação, não tardou a localizar.
 
Havia sarilho ali perto! O instinto, espécie de voz interior a que Smell dava sempre ouvidos, segredava-lhe que aquele caso estava em relação com os Pawnees revoltados que tinham vindo procurar refúgio nas montanhas.
 
Então, com um brado e uma praga, o cavaleiro solitário lançou a montada a galope para a frente, sentindo uma súbita e irresistível necessidade de ação apoderar-se dele.
 
Thunder quase voava sobre o terreno que as suas patas martelavam em cadência, produzindo um som rolante e potente como o eco do trovão.
 
Emergiu do bosque e, galgada a encosta de uma pequena colina, deparou-se-lhe, e ao dono, uma cena que era a confirmação iniludível das suspeitas deste último: em frente de sete carros cobertos, agrupados em semicírculo numa clareira, junto ao rio, galopava um bando numeroso de cavaleiros emplumados, soltando agudos brados de guerra que acordavam os ecos da noite.
 
Um rápido relance de olhos bastou ao recém-chegado para avaliar a gravidade da situação em que se encontravam os sitiados. Dado o número e a força dos atacantes, que eram, de facto, os Pawnees fugidos da Reserva, não se afigurava provável que a sua resistência, apesar de feroz e desesperada como era, pudesse prolongar-se por muito tempo mais. Os índios constituíam, sobre os ligeiros corcéis que montavam, um alvo onde era extremamente difícil colocar uma bala, e além disso, seguindo uma das suas habituais táticas, começavam, já, a lançar flechas incendiárias sobre os toldos dos vagões, para assim apressar o extermínio daqueles que assediavam.
 
Do topo do outeiro, Smell podia distintamente observar os vultos que se moviam no interior do recinto de carros, transportando baldes de água do rio para estes, num ataque porfiado às chamas que se ateavam rapidamente, pondo um cordão de reflexos dançantes no terreno em volta e tingindo de rubro a superfície das águas.
 
Então, sem hesitar, o caçador lançou Thunder a galope ao longo da encosta e precipitou-se, por sua vez, na refrega.
 
Atravessou como um furacão as densas hostes dos Pawnees, nas quais logo abriu uma larga brecha com a coronha da sua espingarda, que segurava pelo cano, brandindo-a como um cacete. E o mesmo vitorioso impulso levou-o até às barricadas da gente da caravana, que, abrigada com fardos de toda a espécie, com as rodas dos vagões e, até, com os corpos dos próprios cavalos, não cessava de fazer chover descargas de chumbo quente sobre a horda infernal dos guerreiros selvagens.
 
A FUGA
 
O último golpe de Smell varreu do dorso da montada um Pawnee corpulento que surgira junto dele, de «tomahawk» pronto a ferir, e o aventureiro penetrou no reduto defensivo dos pioneiros, com tal ímpeto que só conseguiu sopear Thunder no limite do terreno, mesmo à beira d'água.
 
Tinha o rosto enegrecido pelo fumo da pólvora, pois contavam-se por muitas as balas que haviam roçado por ele, balas de brancos e de índios, chamuscando-lhe a pele e o fato, e o peito arfava-lhe na excitação da luta. Olhando em volta, verificou que, esquecidos do combate e do fogo que alastrava sempre, alguns dos homens da caravana tinham vindo rodeá-lo e o miravam com pasmo, como se o tomassem por uma aparição fantasmagórica. Não havia, porém, tempo a perder e, assim, o caçador, deixando para mais tarde a satisfação da curiosidade — aliás justificada —daquela gente, tratou de indagar pelo chefe da caravana, pedindo que o trouxessem, sem demora, à sua presença.
 
Momentos depois, um sujeito barbudo que conservava ainda, na mão direita, uma espingarda fumegante, surgia junto de Thunder e do seu cavaleiro. Respondendo à interrogação que lia nos olhos dele e nos olhos de todos os outros, Smell falou de novo — discurso breve, sem pausas, dito no vigoroso tom que as circunstâncias impunham.
 
— Conheço um vau perto daqui, por onde os vossos carros poderão passar. Se conseguirmos manter os índios a distância até lá... Sou um amigo a quem o acaso de uma jornada por estes lados fez ser testemunha do assalto à vossa caravana. Bem, mas para conservarmos a pele e o «scalp» temos que deixar para mais tarde as apresentações e agir imediatamente. Dê ordem aos seus homens para seguirem o curso do rio até ao Dead Man Canyon (Garganta do Morto). É lá que fica o vau. Vamos!
 
Mat Person, o chefe da caravana, não conhecia o homem que lhe falava naquele tom enérgico, quase perentório, nem sabia se devia ou não confiar nele (naquelas regiões selvagens era preciso, por motivos óbvios, duvidar de tudo e de todos). No entanto, talvez por efeito dessa mesma energia, desse mesmo dinamismo, acatou as instruções que ele acabava de dar e, até, as que deu depois, transferindo, assim, voluntariamente para as suas mãos, o poder de chefia que detinha.
 
Armado desse poder, o caçador estabeleceu rapidamente um plano de ação, o plano da fuga, que, depois, como um ensaiador dando ordens sobre o palco de um teatro, transmitiu aos seus novos companheiros. Aprendido o papel de cada um, o plano começou a corporizar-se: enquanto as mulheres e as crianças, com os feridos e os velhos mais alquebrados, se agrupavam em três vagões onde o fogo, pudera ser dominado, um segundo grupo, constituído, também, por gente destinada a seguir nos carros, sustentava o tiroteio, de forma a não gerar suspeitas entre os índios e a mantê-los ocupados no combate.
 
Smell tinha reunido à sua volta os homens válidos, montados nos cavalos desatrelados aos vagões que já era impossível salvar, e preparava-se para, com eles, romper o cerco dos Pawnees, numa surtida de surpresa que estabelecesse a confusão nas fileiras inimigas, dando assim, tempo à gente dos carros para encetar a fuga.
 
Aguardando o instante propício para a entrada em cena do seu grupo, o caçador contava mentalmente os segundos e minutos que se escoavam na ampulheta do Tempo. Era essencial para o bom êxito do ataque, que este apanhasse os Pawnees desprevenidos.
 
— Vamos!
 
O sinal, dado pela voz do aventureiro, logo foi confirmado por um gesto do seu braço, e todo o grupo saltando por cima de uma barricada, no espaço entre dois carros que acabavam de arder, irrompeu em campo aberto, correndo sobre os índios com a velocidade e o ímpeto de uma irresistível avalanche.
 
A primeira linha de guerreiros vermelhos desmantelou-se logo, numa confusão de cavalos que se empinavam, de corpos bronzeados que eram lançados por terra e espezinhados, antes mesmo de poderem compreender o que lhes acontecia. Os restantes Pawnees, atarantados com a rapidez do ataque e com a audácia dos atacantes, estavam ainda a refazer-se do seu espanto, e já os brancos lhes caíam também em cima, ceifando bem metade do bando com fuzilaria nutrida de carabinas e revólveres. Houve um tumultuar de pânico entre os índios sobreviventes, que, esquecendo-se de dar combate, se dispersaram em todas as direções, fugindo à impiedosa saraivada de balas.
 
Fora conseguido o intento de Smell: os três vagões, libertos por um momento da atenção dos Pawnees, tinham podido evadir-se da sua prisão de chamas e corriam, já, ao longo da margem.
 
Então, o grupo de pioneiros investiu uma última vez, a estabelecer desordem total nas hostes dos peles-vermelhas, lançando-se, depois, na pista da caravana, que se distanciava rapidamente.
 
Foi uma corrida vertiginosa, debaixo dum cerrado chuveiro de balas e de flechas — Os Pawnees tinham voltado a organizar-se e moviam-lhes furiosa perseguição —, no meio da sufocante cortina de poeira levantada pelas rodas, dos vagões e pelas patas dos cavalos, com os gritos selvagens dos índios a ecoarem-lhes aos ouvidos em estridências de causar arrepios na espinha.
 
A manhã vinha perto. Contra o fundo do horizonte, onde já se espalhava uma leve tonalidade rosada, recortaram-se por instantes as penas altivas do toucado que coroava a cabeça de Águia das Montanhas, o chefe vermelho. Um longo brado de guerra foi, simultaneamente, ampliado pelos ecos e rolou de vale em vale, de montanha em montanha, por torrente e desfiladeiro, até morrer na distância. Era o sinal de que os índios não desistiam da perseguição!
 
Um pouco antes do vau que Shell conhecia, as águas do rio voltaram a apressar-se, impetuosas e turbilhonantes. A um sinal do caçador o primeiro vagão entrou no vau. Mas, ao contacto da água gelada, os cavalos estacaram. Então, o chicote do condutor fustigou os dorsos escuros, reluzentes de suor, e o avanço prosseguiu.
 
Durou minutos que pareceram séculos a difícil travessia. Um clamor infernal, feito de gritos e de pragas, de estrondear de tiros, de relinchar de cavalos, enchia as duas margens do rio, sobrepondo-se ao próprio marulhar da água que corria em torrente; os Pawnes acabavam de aparecer na margem e disparavam sobre a presa que se lhes escapava. Mas o facto de fazerem pontaria sobre um alvo em movimento, embora lento, diminuía consideravelmente a eficácia dos seus tiros. E, assim, os poucos carros que restavam da caravana puderam atingir a salvo a margem oposta.
 
Ao ver que os peles-vermelhas se preparavam, também, para atravessar o rio pelo vau, teve uma ideia, que logo começou a pôr em prática.
 
Os vagões tinham rodado em terra apenas alguns metros, depois do que, abandonando-os, os seus ocupantes se dispuseram em linha de atiradores, atrás de uma lomba de terreno, com os homens da escolta e abriram fogo de barragem sobre os inimigos, cujas fileiras registaram, desde logo, baixas novamente consideráveis. Os pioneiros tinham vista aguda e dedos ágeis que nunca se cansavam de premir o gatilho das armas. Em contrapartida, as velhas carabinas de tiro curto dos Pawnees eram quase tão inofensivas, àquela distância, como se estivessem carregadas de pólvora seca. Mas, se os demónios vermelhos conseguissem transpor o vau, então nada livraria os fugitivos de passar um mau bocado, um mau bocado que talvez se transformasse na derrota e no massacre.
 
Foi por observar este facto que Smell se decidiu a agir, numa tentativa desesperada para deter o avanço dos guerreiros de Águia das Montanhas. Pedindo ao companheiro mais próximo o seu polvorinho de caça, espalhou numa larga secção, ao longo da margem abordável do rio, um comprido rastilho, a que logo em seguida deitou fogo.
 
Uma pequena língua vermelha subiu de entre as ervas secas que cobriam o terreno, naquela parte ainda limpa de neve, começando imediatamente a alastrar, impelida na boa direção, com rapidez incrível, pelo vento que rondara bruscamente. Smell tinha observado este detalhe e valera-se dele para executar o seu plane.
 
Ao mesmo tempo, uma fragorosa detonação abalou os ares, lançando quilos de terra sobre os índios, que, por já virem a meio do rio, não puderam abrigar-se daquela chuva de nova espécie. Sujos e furiosos, os Pawnees quiseram atirar-se para a frente e exterminar, de vez, os rostos-pálidos. Mas as chamas, cada vez mais altas e mais velozes, formavam uma cortina de fumo e fogo que protegia os fugitivos.
 
Então, soltando longos uivos de furor, os guerreiros vermelhos deram meia-volta às montadas e afastaram-se a galope, enquanto pela planície reboavam os clamores alegres da gente da caravana, que saudava a retirada dos seus inimigos e a fértil estratégia do homem que a operara: Smell Burton, o caçador solitário !

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