Novelas do Oeste Distante

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sábado, 9 de julho de 2016

CNT009. O rapaz vermelho

O conto que hoje trazemos foi publicado no fascículo 334 do Cavaleiro Andante, tendo a particularidade de não ter sido indicado o seu autor e ter uma ilustração de José Ruy. Aqui fica, com a limitação expressa, e se alguma boa alma quiser colaborar com informação, o reconhecimento do »Novelas» será eterno...
 
Ao ouvir os tiros, Miguel largou precipitadamente a garrafa de whisky. O homem que estava em frente do balcão despejou o -copo e disse, suspirando:
— No tempo antigo sheriff, a cidade era mais calma!
— Pois sim! Porque o bando de Buck Master nos impunha silêncio. Não disparavam na cidade... mas iam-se encontrar os rapazes à beira do rio com uma bala na nuca. Por mim, prefiro Lester Case!
Miguel lançara a sua réplica enquanto se precipitavam para a rua. Ao longe alguns homens agitavam-se, de revólver em punho. Entre eles, um gordo vociferava, com o colt ainda fumegante:
— Esse patife desse índio permite-se vir até ao centro da cidade!
— Buck Master agita-se! — murmurou Miguel — Mau sinal. Que se passa?
— Sempre a mesma coisa! — explicou um espectador da cena — O índio do Rio da Morte veio à cidade comprar mantimentos. Buck Master perseguiu-o e, agora, diverte-se a disparar.
Miguel, o jovem dono do bar, esticou o seu 1,55m e respondeu, rubro de cólera:
— Mas o homem tem o direito de vir comprar o que precisa. Tem família! Ah! Buck! O teu bando quer retomar o poder, mas Lester Case o impedirá.
— Cala-te, idiota! . Não queremos Peles-Vermelhas em Christown ! Se o teu elegante sheriff não sabe fazer respeitar a Lei, nós nos encarregaremos disso. E não te esqueças de que metade do teu bar está hipotecada a meu favor...
De súbito, um novo tiro se ouviu. Um apenas. O gordo Buck ficou estúpido, contemplando a sua mão direita, perfurada. Todos os olhos se viraram para o telhado do Banco. Lá estava o índio, de pé, com uma carabina na mão. Durante longos segundos olhou os brancos bem de frente. Depois, com um salto prodigioso, pulou do telhado e desapareceu numa ruela.
Então a algazarra desencadeou-se e o bando de Buck ia lançar-se em perseguição do fugitivo, quando, na rua principal, surgiram um cavalo cinzento e o respetivo cavaleiro.
— Lester! — exclamou alegremente Miguel — O pobre índio está salvo!
E, quando o grupo de Buck já ganhava terreno, viu-se um laço cortar o espaço, silvando. Casy, o cavalo cinzento, empinou-se e Lester puxou vagarosamente o laço, na extremidade do qual se debatia Buck Master.
— Então, Buck, desobedece-se ao sheriff?
A voz de Lester Case era doce, mas a sua doçura aparecia desmentida pelo clarão dos olhos cinzentos. Louco de raiva, Buck tentava manter a linha perante os seus homens.
— Hás-de pagar-me tudo isto bem caro, Lester Case!
— Ameaças? Desengana-te, meu vê-lho! Os índios hão-de vir à cidade quando quiserem. E serão bem recebidos...
— É o que havemos de ver!
Durante dez anos, Buck Master tinha reinado sobre a cidade. É certo que restabelecera a ordem, mas a ordem do terror. Pouco a pouco, por meios pouco claros, tornara-se proprietário de uma boa parte dos edifícios... e dos homens. Mas um dia chegara um novo sheriff. Calmamente, sem disparar um tiro, Lester Case tomara o seu lugar. Era um simples cow-boy como os seus concidadãos e tinha as simpatias de todos.
Naquela noite, Miguel, -o amigo sincero de Lester, deu uma volta pela cidade. Todos eram por Lester, mas todos tinham medo de Buck. Buck podia tirar-lhes as casas, os campos, as lojas... E ELES TINHAM MEDO...
— Havemos de ver! — dissera Buck Master. .
E viu-se, no dia seguinte de manhã. À porta do sheriff havia um aviso assim redigido: «Sai da cidade, Lester Case, ou...» Por baixo, desenhado, um coração atravessado por cinco balas.
Viu-se também, para os lados do Rio da Morte, uma fumarada suspeita. Às dez horas, viu-se ainda Lester Case selar o seu cavalo e deitar-lhe sobre o lombo uma mala de viagem. Depois desceu a rua principal, sem um olhar de adeus para os seus concidadãos.
— Cobarde! — murmurou Miguel, — ao vê-lo passar. — Abandona-nos. Nunca pensei isso de ti, Lester!
Lester Case partira como um vencido. A cobardia dos seus concidadãos desiludira-o. Sentia-se cansado. Casy também, porque, se arrastava debaixo do sol já quente, e de vez em quando, era preciso que o dono agitasse as rédeas.
Chegaram perto do Rio da Morte.
Lá em baixo, os homens de Buck Master tinham feito o seu trabalho de destruição. As ruivas da cabana do Pele-vermelha fumegavam ainda. O campo de milho fora espezinhado pelos cavalos. Dois corpos, o do índio e o de sua mulher, jaziam varados de muitas balas.
Em volta tudo era silêncio. Quando Lester saiu de entre os destroços, levava consigo um corpo de criança, aparentemente sem vida. E os seus olhos cinzentos brilhavam de resolução.
Ao cair da noite, um estranho grupo entrava em Christown. Casy marchava em passos lentos, transportando o corpo de um rapazinho ainda vivo. Lester Case levava-o pelas rédeas. Chegaram assim à rua principal. À sua passagem todas as cortinas se levantaram. Havia apenas algumas horas que Lester Case tinha deixado o seu posto, e já Buck Master, julgando-se amo e senhor, semeava o terror e a desunião. O grupo chegou à praça principal, e parou em frente do bar de Miguel, que saiu precipitadamente, praguejando. Atrás dele vinha a esposa. Devagarinho, aproximou-se do rapazinho vermelho, desembaraçou-o dos estribos e pegou--lhe ao colo. Ouviram-na murmurar.
— Vem, pobre indiozinho! Eu cuidarei de ti... eu substituirei a tua mãe...
Quando Lester Case se voltou, toda a cidade estava com ele, amiga e decidida!

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